• Pedro Aibéo

Porque é que os Anarquistas devem votar no Partido Pirata na Grécia?


Não reconheço a legitimidade do poder eleito e estou desiludido com a constante migração dos políticos de esquerda para o carreirismo de direita; contudo, votemos no único partido que propõe um conjunto novo de medidas pragmáticas, baseadas em tecnologia, para reduzir tal poder: o Partido Pirata.

Na semana passada, em Atenas, fui agraciado por uma reunião com vários membros do Partido Pirata da Grécia, entre eles o Ministro Grego da Igreja do Monstro de Esparguete Voador (The Flying Spaghetti Monster Church), Vassilis Perantzakis. Sua alteza contou–me que o Partido Pirata da Grécia precisa de dinheiro já que é preciso pagar a elevada taxa de 25 mil euros para concorrer às eleições – um requisito alheio às medidas de austeridade. Eles estão a angariar a verba através de “crowd funding” – elections.pirateparty.gr.

O Vassilis é um daqueles aspirantes a político que ainda não se deixou desviar da rota ideológica para a do duro mundo real direitista. “O Tsipras vendeu–se demasiado rápido”, diz Vassilis, mas “abandonar as ideologias e passar a jogar pelas regras é um desfecho inevitável em política” disse-me o velho amigo de Tsipras e deputado da Aliança de Esquerda na Finlândia, Paavo Arhinmäki, que também encontrei por acaso na baixa de Atenas.

Etimologicamente, a palavra “pirata” (pirate) significa “tentar” – o que é, de longe, um nome muito mais agradável para um partido, cujas políticas se baseiam em cultura aberta e em transparência e não em guerras e secretismo. O nome do partido vem da “Pirate Bay”, a conhecida plataforma P2P que está atualmente debaixo de fogo judicial cerrado.

Há mais de 32 partidos a votos na Grécia (7 deles com assento parlamentar, por terem passado a barreira de 3% dos votos). É um número elevado de partidos para um país tão pequeno. Isto pode ser explicado, em parte, pelo número reduzido de assinaturas necessárias para ir a votos – 200 (o equivalente a um casamento grego modesto). A parte realmente difícil são os 25 mil euros que é preciso pagar para completar o processo. Este dinheiro serve para pagar a burocracia estatal (uma piscina nova para alguém?) e a impressão dos boletins de voto. Existem 450 “piratas” registados na Grécia (e cerca de 2000 não registados). Se todos contribuíssem, seria fácil arranjar o dinheiro.

Vassilis apresenta argumentos que qualquer pessoa razoável defenderia:

  • É urgente impulsionar a separação dos poderes legislativo e executivo na Grécia;

  • A burocracia deve ser reduzida para se acelerar a justiça (na Grécia uma disputa de impostos demora 15 anos a resolver; na Finlândia, por exemplo, demora um máximo de 6 meses);

  • A corrupção deve ser combatida (grande parte dos cirurgiões gregos aceitam apenas dinheiro vivo, passando recibos milhares de euros abaixo do valor real para fugirem aos impostos);

  • Maior transparência nos assuntos públicos e maior privacidade nos assuntos pessoais (os hospitais gregos vendem às companhias de seguros privadas informações sobre os clientes que se submeteram a cirurgias);

  • Um Governo verdadeiramente laico, sem isenções de impostos para as igrejas (nas escolas gregas há dinheiro para aulas de cristianismo, mas não há dinheiro para aulas de programação de computadores);

  • Um orçamento militar mais pequeno do que os atuais 2% do PIB;

  • Uma União Europeia mais unida e mais transparente (atualmente, na Grécia, cerca de 20 mil imigrantes entram todas as semanas; no ano passado, este número correspondia a um ano inteiro).

Hoje, a nível Europeu, a insurreição de partidos como o Partido Pirata é uma resposta natural às últimas décadas de políticos de esquerda que se venderam ao carreirismo e ao autoengrandecimento (lembrem-se de Durão Barroso, antigo presidente da Comissão Europeia, que começou a sua vida política como um jovem maoísta!). Cansa muito nadar contra a corrente (quem diga o Jeremy Corbin), e a vida torna-se certamente mais fácil, se nos conformarmos (reparem na reforma de Durão Barroso). É um facto que as pessoas estão a ficar fartas de política, especialmente por causa dos políticos. Podemos apelidalos de fanáticos desesperados por fama (vejam a candidata da esquerda Joana Amaral Dias, líder do partido AGIR, acabou de posar para a capa de uma revista, nua, grávida e com o seu namorado a abraçá-la por trás, semanas antes das eleições legislativas portuguesas!). Neste contexto, que caminho está a seguir a democracia?

Num cenário perfeito, se todos estivessem bem informados, seria possível tomar decisões perfeitas em conjunto (a definição de democracia — o poder pelo povo). Contudo, para se estar bem informado, é preciso muito tempo. E para as discussões que se seguem, ainda mais! Isso é um pequeno “detalhe” que apanhou de surpresa Juha Sipilä, o novo Primeiro-Ministro da Finlândia, logo após a sua recente tomada de posse: “Ele está frustrado porque pensava que as decisões eram tomadas trimestralmente como numa empresa”, foi o que me disse o Paavo Arhinmäki. Então, se nem todas as pessoas podem ser envolvidas, devemos pelo menos pensar num modelo de representação. Evoluímos assim para democracias parlamentares, sistema aceite na maioria dos países. E sim, parlamentos estes infestados pelos tais políticos sedentos por fama.

Precisamos então de evoluir ainda mais, já que sabemos que o método das contas e dos balanços falhou, falhando também na prevenção dos abusos de poder. Precisamos de um momento “Goldilocks” na nossa organização política, sem radicalismos e com medidas construtivas.

E é aqui que reside o ponto forte do Partido Pirata: eles defendem a criação de um sistema online de votação direta, para que todos os cidadãos, que queiram participar ativamente numa tomada de decisão, o possam fazer (este sistema já tem uma versão experimental implementada pelo Partido Pirata). Defendem também a implementação de moedas digitais alternativas, com vista ao fim do sistema bancário centralizado e privado. Isto soa muito mais a um verdadeiro sistema de governação para e pelos Cidadãos do que o que temos atualmente: um sistema sem governantes, porque TODOS governam. Podemos chamá-lo de anarquia, a ausência de governantes, um sistema auto-regulado onde o poder é exercido pelo povo (democracia).

Eu apoio o anarco-sindicalismo, ou democracia, na sua definição mais pura; mas eu voto, apesar de não reconhecer a legitimidade do poder eleito, porque devemos trabalhar para melhorar o que temos, evitando radicalismos. A melhor escolha, por esta via será provavelmente um partido com uma voz forte a nível pan-europeu e com medidas pragmáticas que ajudem a desagregar as atuais estruturas de poder: o Partido Pirata.

Todos os partidos da direita, centro, de esquerda e especialmente os alternativos em Portugal estão cheios de aspirantes a políticos, mal informados, imaturos e irresponsáveis que procuram a fama e realização pessoal (tal é inevitável já que é uma caracteristica humana, e nisso reside o problema!).

O meu voto em Portugal será em branco. Mas na Grécia existe o Partido Pirata. Eu sei que votar em mais um político narcisista é incomodo, mas votar no Partido Pirata é claramente um passo em frente, optimista e sobretudo realista!

Pedro Aibéo é Professor e Investigador nas Universidades de UNAM (México), de Wuhan (China) e da Aalto (Finlândia) no tópico de “Arquitectura Democratica”. É Arquiteto Sénior e Engenheiro Civil na Finlândia e Director Artístico do grupo de teatro e jogos “Cidadania” na Alemanha O seu último livro, foi um romance ilustrado sobre matemática chamado “Isto Não É Só Matemática”.

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